Singularity estreita laços com Portugal

by singularityuport

Texto Paulo Zacarias Gomes in EXAME

Promete ser o primeiro grande acontecimento internacional na Nova School of Business & Economics (SBE) que inaugurou, em setembro, o seu campus em Carcavelos. No entanto, a expectativa é de que não fique por aí.A 8 e 9 de outubro, a SingularityU Portugal Summit Cascais vai reunir cerca de 25 oradores e dar competências aos 700 participantes esperados para lidar com a disrupção tecnológica das próximas décadas. Do lado dos parceiros da organização nacional, espera-se que o conceito, desenvolvido pela Singularity University, possa estender-se no tempo e ampliar a sua presença em Portugal. “Acredito num projeto a longo prazo; estamos a trabalhar para que ganhe uma maior dimensão no futuro”, disse à EXAME Ricardo Marvão, da Beta-i, um dos impulsionadores da iniciativa e embaixador do chapter de Portugal da Singularity University. Através de programas de formação de executivos, de formação avançada e de conferências, esta entidade ajuda líderes, gestores e outros recursos humanos a lidar com as transformações tecnológicas das próximas décadas, como, por exemplo, de que forma as futuras máquinas superinteligentes irão interagir com a Humanidade.
O encontro, coorganizado pela Nova SBE, pela instituição de apoio ao empreendedorismo Beta-i e pela Câmara Municipal de Cascais, vai debruçar-se sobre temas como impactos da Inteligência Artificial, biotecnologia, nanotecnologia, robótica, astrobiologia, Indústria 4.0, energia ou smart cities, e é dirigido a líderes, mas não só. Inovadores, empreendedores, setores sem fins lucrativos, professores e jovens também integram o público-alvo, e 20% dos participantes deverão vir do estrangeiro.
Uma conferência que começou a ser preparada ainda antes de Portugal instalar, em julho, a equipa que serve de ponto de contacto com a organização norte-americana (o chapter), para atrair atenção para o projeto e realizar eventos periódicos. “Achámos interessante fazer cá a summit e eles aceitaram. Estava em processo de internacionalização”, explica Daniel Traça. Em declarações à EXAME, o reitor da Nova SBE diz que os contactos com a instituição internacional remontam há um ou dois anos e considera um “privilégio enorme” a realização do encontro em Portugal, já que “abre uma janela para espreitar para o futuro e depois prepara-nos para ele.”
Criada há uma década em Silicon Valley, nos EUA, a Singularity University é uma rede internacional de tecnólogos e futuristas, capazes de comunicar o impacto da mudança tecnológica junto de públicos muito diversos, seja na economia, na gestão ou nas finanças, mas não só, e de consciencializar esse público para o que aí vem, trabalhando com ele para o capacitar para essas mudanças. Em alguns casos, como aconteceu no Canadá, na Holanda e na Dinamarca, a presença da universidade evolui para a modalidade country partner, em que a organização estabelece um ecossistema próprio, firmado em parcerias locais, e estabelece projetos de formação e educação à medida das necessidades dos líderes empresariais e políticos.

PORTUGUESES LÁ FORA
Pelo menos desde 2009 que há registo de contacto de portugueses com a instituição, alguns dos quais frequentaram programas nos EUA, mas no último ano as iniciativas com a Singularity University vêm ganhando lastro. O exemplo mais recente foi a ida, em abril, de cinco portugueses para Silicon Valley, após terem vencido a iniciativa Global Impact Challenge. Os criadores das soluções SkinSoul (que encurtam o tempo de deteção de cancro da pele, recorrendo à Inteligência Artificial) e da Mov.E (que permite ao titular de um contrato de eletricidade usufruir dele em qualquer lado através da tecnologia blockchain) estiveram um mês e meio em contacto com a universidade.
A frequentar um programa executivo da instituição esteve, no ano passado Lua Queiroz Pereira, uma das administradoras da Semapa. A holding familiar, do recentemente falecido Pedro Queiroz Pereira, é um dos parceiros fundadores da iniciativa, tal como a Ageas (também corporate partner da Nova SBE) e a Galp.
Entre os participantes da cimeira de outubro em Carcavelos estarão vários portugueses que, ao longo dos últimos meses, contactaram com a universidade em Silicon Valley. Depois desse treino e aprendizagem, são agora também capazes de explicar as mudanças tecnológicas que se avizinham. Só no último mês de agosto, foram 25 os cidadãos nacionais que estiveram no encontro anual, o Global Summit, em São Francisco.
“Correu muito bem. Deu para ver tudo o que há de novas tecnologias, e houve momentos interessantes para falar com speakers”, sintetiza Ricardo Marvão sobre a iniciativa na Califórnia. Também Miguel Pinto Luz, vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, esteve lá e recorda “dias intensos” em que “oradores de exceção apresentaram tendências que vão mudar as nossas vidas”. Este responsável justifica a associação da autarquia ao projeto com a forte implantação de novas tecnologias no dia a dia do município, invocando o trabalho feito para se afirmar como smart city, seja através da política tecnológica nas escolas (como acontece com a introdução à programação feita junto dos alunos das escolas do concelho), seja através da gamificação da vida pública, com do programa City Points, que premeia as boas práticas dos cidadãos, recorrendo a pontos que podem ser trocados por acesso a bens culturais.
“Não há melhor instituição no mundo a tratar esta questão do que a Singularity. É uma parceria permanente com Cascais e Portugal”, sustenta o autarca sobre o contacto. Embora o investimento total na cimeira não seja conhecido – a Beta-i limita-se a dizer que é “substancial” – a Câmara de Cascais revela que aplicou 250 mil euros na atração da iniciativa para o concelho.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, abrirá os trabalhos da Singularity U Portugal Summit, que terá quatro palcos para debater os temas principais. Depois, cada participante escolherá os temas sobre os quais quer aprofundar conhecimentos e entra num período de deep dive, com momentos para debates mais específicos. Há ainda uma terceira categoria de discussão, com workshops e momentos mais práticos, onde é possível especializar ainda mais o conhecimento.
A meio de setembro, quando os bilhetes passaram dos 950 euros, para os primeiros inscritos, para os 1 450 euros por cabeça, estavam confirmados 17 oradores, 12 dos quais internacionais. Os preços não ficam longe dos que são praticados pela universidade no seu site, onde um curso online de quatro semanas, com duas a três horas semanais semana, pode custar 485 dólares, ao passo que um pacote de três cursos – Foundations of Exponential Thinking, Practicing Exponential Foresight e Impact Lab, por exemplo – ascende a 1 485 dólares, com acesso a cerca de uma dezena de especialistas.

ANUAL E REGULAR
Fechada a primeira edição da conferência em Cascais, o objetivo é que a iniciativa ganhe tração e passe a ter caráter regular e anual. “A Summit vai reunir todos os anos pela altura da rentrée e a partir do próximo vai passar a concentrar-se numa área, tendo em conta as três ou quatro em que Portugal se poderá especializar”, afirma Ricardo Marvão.
Os nomes de Vivienne Ming (especialista em neurociência cognitiva) e de Ramez Naam (energia e ambiente) foram dos primeiros a serem confirmados para Carcavelos, depois de ambos terem sido também oradores na cimeira global de agosto. Em São Francisco, Ming analisou como a combinação entre Inteligência Artificial e neurociência pode influenciar o potencial humano no futuro, enquanto Naam abordou as mudanças impostas pelas tecnologias exponenciais no setor energético.
“Serão dos melhores speakers da Singularity”, acredita Ricardo Marvão, enquanto Daniel Traça espera que a conferência ajude à transformação da própria Nova SBE e sirva de ponte entre a tecnologia e a Humanidade: “A tecnologia do futuro vai afetar todas as empresas, não há nenhuma que venha a sobreviver sem data, sem Inteligência Artificial, computação quântica, blockchain. (…) A transformação será muito forte e rápida, com impacto na vida das pessoas e da sociedade”, conclui.